quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Dentes, pátria e seres humanos fedidos.

Sempre há pessoas fedidas na biblioteca. Dessa vez, quando um velho fedido sentou no lugar ao lado do meu, eu não me surpreendi. Porém, eu arrisquei olhar para o indivíduo, e então eu vi: os dentes dele, para fora e para frente, todos podres. Era um necrotério dentário, uma dentadura moribunda... e eu sentia o cheiro da podridão do monsieur. Ele respirava e tossia para o ar o cadáver em decomposição que morava ali dentro.


Quando os inúmeros estrangeiros, com seus sotaques imperfeitos e suas caras inseguras, solicitam um visto de permanência, uma das exigências do governo francês é um exame médico, no qual o médico mal-humorado que os recebe verifica, entre a rotina de exames, seus dentes.
Se ter uma boa higiene bucal é uma condição para um estrangeiro residir na França, por que o Estado não expatria os franceses que não cuidam dos dentes, logo, do bem-estar nacional?
Da próxima vez, monsieur, eu vou vomitar em cima da sua pesquisa. E, ao invés de levantar em desespero à procura de um outro lugar, eu não vou reprimir meu impulso e vou te agredir fisicamente.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Paixão nacional

O esporte favorito dos franceses não é reclamar-e-bufar, não é comprar a Copa do Mundo, não é ser arrogante nem beber vinho nem fazer manifestações. O esporte dos franceses é correr.
Corre-se na neve, corre-se sob chuva, corre-se de All Star e no metrô.
Corre-se sozinho ou em grupo.
Hoje eu vi uma família toda correndo no parque - o pai, a mãe, a filha e o poodle. Na terceira volta o pobrezinho já escancarava a língua e não alcançava nem a menina.
Eu só não entendo, meu Deus!, para onde vai tanta endorfina?!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A tua cozinha tá cheia de ratos

No Oriente, conta-se que o rato trouxe o arroz ao ser humano. Hoje, em Paris, a lenda vive.

Há mais de 6 milhões de ratos na cidade. Dependendo da área, a densidade demográfica desses roedores urbanos pode chegar a um número de 8 a 10 ratos por habitante. Em cinco anos, a população aumentou 40%. Eles são criaturas espertas e resistentes, segundo os cientistas, e são capazes de escalar, nadar, cavar... e cozinhar.
Desde o mês passado, eles têm me chamado a atenção por suas aparições repentinas e fugazes e freqüentes, e pela revelação de um sub-mundo oculto de ratazanas e camundongos.

Hoje, fui com a Laura ao restaurante japonês por onde passou o cineasta japonês Takeshi Kitano quando ele veio a Paris. Isso foi uma grande descoberta da Laura, e um atestado da autenticidade do sushi servido ali. Como já era tarde, no salão do térreo só havia eu, a Laura e as duas japonesas sorridentes no balcão. Porém, enquanto eu tentava pegar o arroz com os palitos e ouvia a Laura falar sobre neologismos e traduções, ouvimos um barulho sutil e rápido que vinha do chão, e sentimos a Presença de uma criatura que passou pelos pés das mesas e cadeiras até entrar debaixo do sofá onde a Laura estava sentada. Eu olhei tentando procurar a origem do barulho, e vi: o vulto de um ratinho. O vulto de um ratinho no restaurante.

Vamos dar nossos cumprimentos ao chefe, Laura. Você não vai terminar de comer? Foi ele que preparou!

Fonte, para dizer que eu não estou exagerando: http://www.liberation.fr/vous/0101626131-rats-de-maree-sur-paris

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ratatouille

Criaram Ratatouille para que, quando a gente visse um rato em Paris, nosso nojo fosse imediatamente substituído pela imagem fofa de uma comunidade secreta de ratos gordinhos da Disney.

domingo, 11 de abril de 2010

Springtime for Sarkozy

Hm... algo está acontecendo com Paris. Finalmente as folhas da árvore do vizinho vão bloquear sua possível vista da minha janela sem cortina, faz uma semana que não chove e a fonte da Porte Dorée voltou a funcionar, e a fazer um barulho de chuva. Nesse fim-de-semana, os vizinhos ricos do meu vizinho rico dono da árvore fizeram suas refeições no jardim e celebraram a primavera e o judaísmo.
Bicicletas, corredores, crianças, o Louco do Cabelo Branco... as ruas estão tomadas por eles.

Estaria o pólen alterando a percepção dos franceses?

...

Isso não é uma pergunta retórica. Paris, I'll be watching you.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Lavando a roupa suja

Todas as (poucas) vezes em que eu fui à lavanderia para lavar minha roupa de cama e o resto, eu acabei me enganando e sofrendo por antecipação com a preguiça e o esforço da tarefa doméstica de levar a roupa para lavar. Nunca foi tão penoso assim.

Eu sempre escolho o programa de lavagem mais curto e trago e um livro, no qual eu nunca consigo me concentrar, porque fico olhando para as outras pessoas, por exemplo para esta senhora fumante que acabou de abrir um pacote de presunto e engolir uma fatia inteira como uma batatinha. Aparentemente ela também não consegue se concentrar na revista que está lendo, "L'euro et la crise", e sorriu para mim quando eu cheguei. Sentada na outra dupla de banquinhos vermelhos, está uma chinesa impaciente. Ela não trouxe um livro nem uma revista, e não escolheu o programa mais curto.

Eu já vi um soldado do exército lavando seu uniforme e umas meias sujas, uma senhora gorda ocupando duas máquinas de secagem por vários ciclos e jovens desocupados que não vieram para lavar a roupa. Quando decidiram sair, eles seguraram a porta para uma mulher alta, magra e loira que carregava um grande e pesado cesto de roupas. Depois do gesto automático de gentileza, o olhar deles percorreu de baixo a alto toda a extensão das pernas da moça, semi-cobertas por uma meia calça obscena que terminava justamente onde acabava a mini-saia dela, imediatamente depois da curva de seu derrière. O olhar ficou lá, mas o queixo caiu.

Tem gente que carrega a máquina e sai, depois vem buscar as roupas lavadas...

(Ah, as manchas de chá não saíram da minha toalha, nem o amarelo misterioso na gola do meu pijama).

Eu acabei de descobrir quem cuida da lavanderia, que é mais ou menos uma terra de ninguém, ou um lugar governado pela máquina de pagamento que ativa as máquinas de lavar e secar: é o homem que cuida das bombas de gasolina logo ao lado (vulgo "posto de gasolina"). Ele gritou de fora para o menino desocupado que resolveu entrar e sentar na mesa usada para dobrar as roupas. "Não pode sentar na mesa!"
O menino tem uns 14 anos, pose de malandro, cara de mau, gel no cabelo curto, jaqueta de couro e atitude de dominador do mundo.
"Ah, não pode? Por quê?"
O senhor explicou que as pernas da mesa não são firmes.
"Não está escrito em lugar nenhum", peitou o menino.

A juventude francesa é um grande desperdício, é uma grande massa de rebeldes sem causa, seja pelos protótipos dos cantores de hip hop da periferia, seja pelos burguesinhos de cabelo emo, mas isso fica para outro post.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Show me your smile

Há 2 semanas, eu saí correndo para imprimir uns arquivos na lan house do Árabe, um homem baixinho, magro e simpático, de origem oriental não identificada e que pensa que no Brasil se diz "buenos dias"*.

A Lan House do Árabe é um lugar pequeno, habitado por cabines telefônicas, computadores, uma máquina de xerox e uma impressora. A bancada onde fica o Árabe é decorada com cartões telefônicos de lugares longínquos, e notas de dinheiro de vários países.
Todo dia, das 09h00 às 01h00, ela abre suas portas para o mundo, e gente do mundo todo vai lá para fazer ligações internacionais, acessar a internet, xerocar, imprimir e sorrir para o Árabe: mulheres gordas com trajes africanos, senhoras muçulmanas de véu, adolescentes desocupados, velhas francesas que não sabem fazer cópias, homens de meia-idade com pen drives, meninas com maquiagem e cabelos esticados, árabes amigos do Árabe...

No sábado em que eu corri para imprimir as coisas na lan house, depois do Árabe tentar me explicar 4 vezes** que eu poderia usar o pen drive dele e um dos computadores dele para preencher novamente o PDF que não saía do meu computador com as alterações salvas (preenche de novo, ué), eu ouvi uma conversa (parte de uma, na verdade) (enquanto o Árabe pensava como essa menina brasileira é meio maluca...).

Dois computadores à minha direita, um homem careca usava um fone de ouvido e conversava pela internet num inglês cheio de sotaque (dizendo o "r" como em poRta, ou bRaço, por exemplo) com uma mulher. Conforme eu ia copiando tudo de novo para os espaços do PDF, entre as teclas trocadas do teclado francês e os farelos de croissant da mesa, eu ouvi:

"Então você acha que pode vir viver aqui em Paris comigo?"...

E eu comecei a dividir minha atenção com a conversa, que ele continuou com esta frase que não me convenceu:

"Nem me fale em crianças que eu começo a chorar... É tão bonito..."

Mas depois de alguns momentos que o PDF me fez perder, ele disse:

"Você é tão bonita. Me mostre seu sorriso... Oh, I love you."

Eu levantei para pegar as 10 páginas que imprimi errado e as que eu imprimi certo, e voltei ao computador 3 para guardar minhas coisas. A última coisa que eu ouvi foi:

"Então você acha que pode preparar sua vinda para Paris?"

E assim, atrasada, eu fui pagar o Árabe e pegar o metrô para encontrar a Laura, e deixei o careca apaixonado tentando trazer sua amada de algum país distante. Oh, love is so beautiful.

* Esforço válido.
**Eu não conseguia dizer que o arquivo não salva as alterações, por que não dá para imprimir direto do meu computador? Aqui tem internet...